sábado, 30 de janeiro de 2016

Eu respeito o Carnaval, mas...

No começo, não haviam marchinhas ou músicas de carnaval. As pessoas saíam às ruas, mascaradas e fantasiadas e jogavam água umas nas outras. Devia ser por causa do calor. Os anos passaram, as marchinhas chegaram e muita coisa mudou desde o "Abre Alas" de Chiquinha Gonzaga até os dias de hoje.
O Carnaval se tornou uma manifestação cultural muito popular aqui no meu país. Eu respeito e até admiro qualquer tradição e cultura desde que esta respeite os direitos humanos, dos animais e a natureza em si. Respeito o Carnaval, porém respeitar não é gostar.
Entendo que as pessoas gostem de sair às ruas usando fantasias, cantando e dançando. Por mim, elas fariam isso todos os dias. E ficariam menos histéricas nesses dias de Carnaval. Elas teriam gasto sua energia ao longo do ano, ao invés de se aprisionarem numa rotina esmagadora, onde elas mesmas se censuram e se policiam.
Eu odeio o Carnaval. Com todo o respeito, mas é meu gosto pessoal, não sou obrigado a ser igual aos outros nem acho que ninguém deva ser como eu. Aliás, eu não aconselho ninguém a ser como eu. Não siga meu exemplo, não seja como eu!
Então, tendo esclarecido aqui meu respeito ao Carnaval e aos foliões, tomei a liberdade de listar alguns dos motivos que me fazem odiar o Carnaval:

Sting no filme "Duna"

1 - As músicas: eu acho as músicas de Carnaval muito, muito deprimentes. De marchinha à samba de avenida, de trio elétrico à bloco que toca Beatles. Tudo ao som de marchinha fica deprimente, aliás. Até frevo me dá vontade de chorar.

2 - A multidão: eu odeio multidão. Grandes multidões, então, são o inferno para mim. Não precisa ser Carnaval. Pode ser show de rock, pode ser meu artista favorito de todos os tempos. Simplesmente não quero sentir o suor de gente estranha escorrendo pela minha pele. Além disso, os homens do meu país não sabem se comportar bem em multidões ou alcoolizados, imagina os dois juntos. Ou vão apalpar suas nádegas, ou vão roubar-lhe o telefone, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

3 - As danças: em geral, acho horríveis. Mas tem o samba, ver alguém sambar de verdade é bonito. Mas você não vai querer me ver sambando, não é bonito. Minha falta de talento nata para rebolar e gingar com os pés me fez perder um pouco de interesse no assunto. Já as dancinhas de estação (cada ano inventam uma) costumam ser o pior do pior do pior do que você imaginou agora. Nem comento. E tem também aquela sacolejada que os destaques de escola de samba dão, do alto do carro alegórico, morrendo de medo de despencar daquilo. Essa sacolejada também é típica.

4 - As pessoas mostram seu pior lado no Carnaval. Quem é violento põe as manguinhas de fora, os viciados quebram o jejum, é como se o inferno abrisse as portas e todas os seres infernais viessem passear na Terra esses dias. Pessoas te puxam pelo braço. Uma das coisas que mais se fala no Carnaval é "me solta" ou "larga o meu braço, seu babaca".

5 - O cheiro nas ruas: é frescura não gostar de cheiro de xixi, cerveja e vômito nas ruas? E no ônibus ou metrô? Como não vou aos blocos, não sofro com o desodorante vencido alheio. Só com os resíduos que os foliões deixam na rua...

6 - Os políticos no meu país desviam ou cortam verbas para coisas essenciais como hospitais e escolas. Mas a verba para o Carnaval sai, em diversas cidades. Eu acharia ótimo que o governo investisse em festas populares, se não houvesse desigualdade no meu país, mas não é esse o caso. Além disso, lava-se muito dinheiro nessa jogada, dinheiro vindo obviamente de atividades ilegais, escusas, senão violentas.

7 - Quando é para brigar, as pessoas festejam, quando é para festejar elas brigam. Por exemplo, o salário mínimo está em torno do equivalente a duzentos dólares. Mas os produtos no supermercado estão talvez mais caros que nos Estados Unidos. Ganha-se o equivalente a duzentos dólares ao mês por quarenta e quatro horas de trabalho semanais, mas não se pára o país para uma greve geral. Mas tudo pára no Carnaval. E, durante a festa, que era para ser divertida, muitas vezes as pessoas brigam. Oremos!

8 - A maior parte das fantasias é ridícula. É sempre um desfile de horrores, para mim. A dupla "policial e enfermeira" por exemplo, é a coisa mais sem imaginação da face da Terra. Se usa penas e plumas verdadeiras, então, é pior ainda, pois fere o direito dos animais. As fantasias de escola de samba são repetitivas e apesar de opulentas, são monótonas. Tenho trinta e sete anos, e sempre foi a mesma coisa, todo ano.

9 - Empresas multinacionais lucram estimulando o alcoolismo nas pessoas. Beber um pouco é normal. Beber até morrer não é normal. Simples. Além disso, uma certa cerveja tem o monopólio das vendas de rua no Rio de Janeiro. Não menciono o nome para não fazer propaganda deles.

10 - A obsessão pelo sexo. Só porque nenhuma obsessão é boa, por sexo tampouco. Bom seria se as pessoas ficassem obcecadas pelo uso de camisinha.

Mas o importante é que você faça o que quiser, sempre respeitando as pessoas, os animais e a natureza, é claro. Se você gosta desse rito masoquista chamado Carnaval, vá em frente, se acabe e não ligue para o que dizem os outros (como eu). Se não gosta, faça sua programação não-carnavalesca (contanto que esta respeite os direitos humanos, dos animais e da natureza) e seja feliz. Ah! Lembre-se, caso seja folião, que o melhor calçado para ir à um bloco no Rio de Janeiro é um par de galochas! Alalaô para vocês!



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Sei que essa frase, hoje em dia, é ostentação. Mas como nunca fui um cara muito humilde mesmo, resolvi mandar. Estive pensando em como o mu...